Dica de leitura: Tenho Dito || A vida por um fio

Oi gente, tudo bem?
Hoje eu vim compartilhar um conto da mitologia grega muito legal que é um dos capítulos do livro Tenho Dito - histórias e reflexões de moda de autoria do João Braga, grande escritor e profissional da moda. 
Descobri ele no início do semestre lá na faculdade, que a minha professora de História da Moda levou o livro do João Braga assim que lançou para que déssemos uma olhada, e distribuiu esse capítulo para que nós lêssemos, e eu amei ele, depois uma outra professora me emprestou ele para que eu pudesse construir minha revisão de literatura do meu projeto, e lá estava eu lendo o conto novamente, e pensando em compartilhar aqui no blog assim que desse tempo.
O capítulo do livro chama-se A vida por um fio e conta a história da deusa Palas Athena e Aracne, o conto é um pouquinho extenso, mas prometo que vale a pena ir até o fim, querem saber mais? Continue lendo então!
A vida por um fio trata-se da interpretação poética e romanceada de uma história da mitologia grega que, além de justificar a realidade dos fatos, é também contemplada por um ensinamento de ordem moral, como toda referência mitológica assim o faz.
Em tempos imemoriais, conta-nos a teogonia que Palas Athena, nascida da cabeça do próprio pai, Zeus - o deus dos deuses -, teve como atributo maior sera deusa e a patrona do conhecimento, da sabedoria, ou seja, da razão superior; sua incumbência seria seria a de ensinar tais preceitos aos homens. Portanto, foi Palas Athena que ensinou os humanos a arar a terra, a semear, a colher, a fiar, a tecer, a construir armas, a guerrear, entre todas as outras coisas. Humanos e divindades eram iguais em tudo, diferenciando-se somente na imortalidade. Os deuses não morriam, transformavam-se.
Soube, certa vez, Palas Athena, que lá pelo interior dos Balcãs havia uma jovem mortal tão bonita quanto habilidosa que fiava e tecia muito bem. Essa moça chamava-se Aracne e, de tão hábel que era sua arte, tornouse famosa a ponto de despertar na deusa a curiosidade de visitá-la. Palas Athena resolveu ir disfarçada de senhora idosa para que não fosse reconhecida como a deusa que era.
Sabia a imortal que Aracne, além de trabalhar muito bem, sempre fora acometida de tremenda vaidade e consequente prepotência pelos seus dons de exímia habilidade técnica. Chegando ao local onde Aracne se encontrava, esta ensinava a um grupo de jovens moças a fiar e a tecer, sua arte maior. Palas Athena, ou melhor, a velhinha, lá se estabeleceu, ouvindo atentamente os dizeres daquela hábil mortal,magnífica em sua prática, mas totalmente desprovida da maior de todas as virtudes: a humildade. As alunas, assim como a deusa disfarçada, prestavam atenção aos ensinamentos da mestra quando esta resolveu verbalizar que sabia fiar e tecer melhor do que Palas Athena. A velhinha se pronunciou e disse que ela deveria ser humilde e respeitosa à deusa, pois, afinal de contas, tinha sido a imortal que havia ensinado a fiar e tecer, uma vez que era a deusa do conhecimento e da sabedoria. Aracne rebate à velhinha dizendo que fosse ensinar conduta às suas netas, pois fiava e tecia mesmo melhor do que Palas Athena. Tão furiosa ficou a deusa (os deuses gregos, em geral, tinham os mesmo sentimentos dos humanos) com a falta de humildade da mortal que resolveu se transformar em deusa, como de fato era conhecida. Ao fazê-lo, as moças presentes, alunas de Aracne, logo a reconheceram e fizeram uma reverência de saudação; ao contrário da mestra que a peitou e reafirmou que sabia mesmo fiar e tecer melhor do que ela.
Ofendida e entristecida, Palas Athena sabia que cabia a ela ensinar a humildade a Aracne, pois essa era também a sua função; e havia chegado a hora. Virou-se para a mortal e disse que já que ela era mais habilidosa do que quem a ensinou, lançaria um desafio para ambas: qual das duas teceria melhor uma tapeçaria, num determinado intervalo de tempo, tendo como tema o próprio Olimpo, a morada dos deuses. Aracne aceitou. Cada uma foi para um lado cumprir sua tarefa.
De fato, Aracne fiava e tecia melhor do que Palas Athena, mas desconhecia a prática da humildade. Precisava aprender tal virtude, e Palas Athena era responsável por ensinar-lhe.
Findado o prazo do trabalho, as duas se apresentaram e mostraram os respectivos resultados. Palas Athena exibiu uma linda tapeçaria, tanto em técnica quanto em temática, ressaltando as virtudes dos deuses do Olimpo, afinal lá morava e pertencia a essa casta. Todos admiraram o trabalho da deusa. Chegou, então, a vez de Aracne apresentar sua conclusão. Diga-se antecipadamente que Aracne era de fato muito mais habilidosa que a imortal; seu fio era muito mais fino e resistente e sua tecelagem era de rigor técnico incomparável e indiscutível. A tapeçaria da mortal era verdadeiramente belíssima em tudo, porém o assunto abordado dentro da temática do Olimpo era a exaltação dos vícios praticados pelos deuses. Palas Athena novamente sentiu-se ofendida e ultrajada e tão furiosa ficou que resolveu estraçalhar o trabalho de Aracne, desintegrando-o na totalidade ao rasgar a tapeçaria dos vícios. Nesse momento Aracne pôde constatar a insatisfação da deusa e, com medo, ficou a ponto de sair correndo, ainda envolta em fios, para fugir de Palas Athena. Aracne começou a correr e Palas Athena a correr atrás. Aracne corria e Plaas Athena a perseguia. E quanto mais Aracne tentava fugir, mais determinada estava a deusa a capturá-la. Aracne entrou por um corredor que dava numa sala sem saída. Ficou encurralada e logo pensou: não vou deixar que Palas Athena me mate, eu mesma vou me matar. Pegou os fios nos quais ainda estava envolta, fez uma forca, prendeu-a num suporte que havia no teto daquele cômodo, colocou-a no pescoço e, quando estava prestes a pular, Palas Athena chegou à sala, olhou para Aracne e disse que não a deixaria se matar, que lhe pouparia a vida lhe rogando uma praga e transformaria num animal - ela passaria o resto da existência dependurada, fiando e tecendo, e todo mundo que encontrasse seu trabalho faria como ela fez, o destruiria. Transformou assim Aracne em aranha e esse animal, de fato, encontra-se pendurado em um fio praticando o trabalho estipulado pela deusa como forma de aprender a virtude da humildade; e nós, ainda hoje, ao depararmos com seu trabalho, ou seja, teia, a destruímos como determinou a imortal.
E, desse modo, a mitologia grega nos ensina o seu ponto de vista que justifica a arte de fiar e tecer.
Vale a pena lembrar que o nome científico das aranhas é "aracnídeo", ou seja, uma lembrança a essa moça que trabalhava muito bem, mas que não foi humilde o suficiente para respeitar os seus superiores.


E aí o que acharam do conto? Eu, sinceramente, acho que nem a deusa era humilde para aceitar que não era melhor no que ela ensinou, como vai ensinar humildade a alguém sem dar exemplo? Oras, como assim destruir o trabalho da mortal só por que a Aracne não era humilde, assim que ela não ia aprender mesmo! Enfim, tenho pavor de aranhas e sempre destruo as teias realmente, o conto faz sentido e dentro da moda também é uma história interessante de saber!
Espero que vocês tenham gostado e super indico que comprem o livro e leiam os demais capítulos.
Beijos
Fonte: Livro Tenho Dito: histórias de reflexões de moda
Autor: João Braga

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